Aplicação do Processo de Recontextualização - Dossiê da Revista Eletrônica Com Ciência


         
Para compreender o Processo de Recontextualização é preciso saber aplicá-lo. O método que utilizaremos será o de análise de notícias e como as estratégias divulgativas são utilizadas pela aplicação dos procedimentos de expansão, redução e variação. 

A primeira seção do blog é denominada “Entendendo o processo de Recontextualização”. Esta seção foi criada para situar o usuário sobre como são aplicadas as estratégias discursivas dentro do blog. 
A segunda seção do blog, esta que estamos é a aplicação do processo de Recontextualização e análise das estratégias discursivas de expansão, redução e variação. 
A terceira seção do blog é para análise crítica de algumas notícias que são divulgadas na mídia com viés científico. Para esta seção analisamos notícias gerais e não exclusivas do dossiê. 


           Iremos analisar a Revista Eletrônica de Jornalismo Científico, Comciência, dossiê nº 175, Vida e Tecnologia. Serão observadas a estrutura, as especificidades léxicos-semânticas e a organização que revelam o processo de recontextualização do discurso científico em discurso divulgativo. 

Desenvolvemos um modelo para padronizar a análise, em que é informado o número e título da notícia, a referência online da obra, o link para que o usuário acesse a fonte da notícia e, por último, é feita uma análise pontual de algumas estratégias utilizadas, conforme exemplo:

Notícia 1: A era dos ciborgues: como a ciência vai hackear o corpo humano

Fonte: Dossiê da Revista Comciência

ALCANTARA, Tiago. A era dos ciborgues. Disponível em: <http://www.comciencia.br/comciencia/handler.php?section=8&edicao=120&id=1455> Acesso em: 02 nov. 2017.


Link:

Disponível em: http://www.comciencia.br/comciencia/handler.php?section=8&edicao=120&id=1455. Acesso em: 02 nov. 2017. 


Análise: Nessa reportagem do dossiê Vida e Tecnologia da Revista Comciência é possível encontrarmos os seguintes procedimentos:


No primeiro parágrafo o jornalista utiliza as estratégias de expansão e variação para caracterizar a acromatopsia, dizendo que é uma espécie de daltonismo total. Ele explica melhor com a utilização de termos gerais o que é a doença.


"Neil Harbisson vê o mundo em tons cinza. O britânico sofre de acromatopsia, uma espécie de daltonismo total desde que nasceu. Entretanto, aos 21 anos, ele participou de um experimento que devolveu as cores ao seu mundo sensorial".

"Por meio de uma prótese, Neil consegue "escutar as cores". Chamado de Eyeborg, o acessório consiste em uma antena com câmera que é capaz de traduzir a frequência de luz emitida pelas cores – mesmo aquelas que um ser humano comum não consegue captar – para frequências de som".





No primeiro parágrafo, também ocorre a estratégia de Redução em relação ao método científico. O jornalista não revela como chegaram no resultado, apenas descreve em poucas linhas como ocorre. 

"Por meio de uma prótese, Neil consegue "escutar as cores". Chamado de Eyeborg, o acessório consiste em uma antena com câmera que é capaz de traduzir a frequência de luz emitida pelas cores – mesmo aquelas que um ser humano comum não consegue captar – para frequências de som".

No segundo parágrafo ocorre também a expansão quando ele explica que Neil é adepto do ciborguismo. O jornalista explica que indivíduos como Neil convidam pessoas de todo mundo a serem aprimoradas ou hackeadas pela tecnologia.  


"A maneira como ele identifica as cores fez com que desenvolvesse projetos artísticos envolvendo luz e som. Mais do que isso, o artista luta pelo ciborguismo – e convida pessoas de todo o mundo a deixar que seus corpos sejam aprimorados, ou hackeados, pela tecnologia. “Eu parei de sentir a diferença entre o software e meu cérebro quando comecei a sonhar com as cores. É algo invisível, que aconteceu dentro da minha mente e foi quando comecei a me sentir verdadeiramente um ciborgue”, afirmou.

O verbo dicendi utilizado para dar voz a Neil Harbisson é do tipo argumentativo, pois demonstra uma posição decisória perante o tema. 


"Criaturas que são, ao mesmo tempo, máquina e animal, povoam a ficção científica há séculos. Áreas como biologia, neurociência e engenharia têm estudos que podem mudar os corpos no futuro próximo. As pesquisas ainda levantam questões interessantes, como o limite entre seres humanos e máquinas, e até mesmo revelam a possibilidade de implante de membros, sensores e dispositivos, sem que exista uma doença ou deficiência.
"Todas as pessoas no planeta precisam estender seus sentidos. Nossa percepção da realidade é extremamente pequena, se compararmos nossos sentidos com os de outras espécies", encoraja o artista Harbisson.

Conclui-se que ocorreu a utilização dos procedimentos de expansão, redução e o uso do verbo dicendi no modo argumentativo no desenvolvimento desta reportagem. 

Notícia 2: Inteligência Artificial a favor da Medicina

Fonte: Dossiê da Revista Comciência
http://www.comciencia.br/comciencia/handler.php?section=8&edicao=120&id=1459

GRAEL, Fernanda. Inteligência artificial a favor da Medicina. Disponível em: http://www.comciencia.br/comciencia/handler.php?section=8&edicao=120&id=1459. Acesso em: 02 nov. 2017.  


FERRERO, C. L. A mescla de vozes em artigos jornalísticos: o caso da “Vaca Louca”.
In: GOMES, Maria Carmem Aires; MELO, Monica Santos de Souza (Orgs.).
Estudos
discursivos em foco
: práticas de pesquisa sobre múltiplos olhares. Viçosa – MG: Ed.
UFV, 2011, p. 93-110
  


Nesta notícia o primeiro parágrafo consiste em uma descrição de como é o processo de inteligência artificial aplicado às cirurgias e qual o papel do médico na atividade. Caracteriza-se como uma Sequência Narrativa Descritiva, pois situa o leitor sobre o procedimento cirúrgico aplicado na Medicina através da Inteligência artificial. 


Um cirurgião sentado em um equipamento robótico controla os braços mecânicos do dispositivo, que carregam uma câmera, pinças e outros instrumentos cirúrgicos – todos com menos de um centímetro. Pela câmera, ele enxerga tridimensionalmente e ampliado o interior do paciente. Com um console, ele controla os instrumentos que realizam a cirurgia, minimamente invasiva, com incisões de um a dois centímetros para passar o braço mecânico para o interior do corpo. Os movimentos realizados são impossíveis para uma mão humana. É assim que o robô Da Vinci opera.


O debate sobre a automatização substituindo o trabalho de vários profissionais é algo que gera polêmica em um momento onde muitas mudanças profissionais ocorrem devido aos avanços tecnológicos. Ao final da reportagem o verbo dicendi utlizado para a fala do coordenador do curso demonstra a intenção de tranquilizar a comunidade médica quanto ao fato do robô ser um aliado no processo cirúrgico e não um substituto. Os verbos acredita e pondera demonstram a cautela do meio científico de acordo com a teoria de Ferrero. 


Succi acredita que, mesmo com o avanço das tecnologias de inteligência artificial na medicina, o papel do médico jamais será dispensado. “A tomada de decisão nas situações imprevistas depende da experiência e senso crítico de um profissional humano”, pondera. Assim, a robótica na medicina é uma ferramenta a favor do médico, e não feita para substituí-lo, contribuindo para garantir, na medida do possível, o bem-estar dos pacientes.



Notícia 3:  Novas tecnologias assistivas oferecem mais autonomia a pessoas com deficiência

Fonte: Dossiê da Revista Comciência
http://www.comciencia.br/comciencia/handler.php?section=8&edicao=120&id=1453

NARDINI, Erik. Novas tecnologias assistivas oferecem mais autonomia a pessoas com deficiência. Disponível em: <http://www.comciencia.br/comciencia/handler.php?section=8&edicao=120&id=1453>. Acesso em: 02 de nov. 2017. 


Nesse texto, logo no primeiro parágrafo já identificamos a preocupação do autor em explicar o termo Tecnologia Assistiva. No processo de Recontextualização a explicação de um termo caracteriza a estratégia divulgativa de expansão porque o autor não está falando com os pares cientistas e sim com leitores leigos no assunto específico. E também ocorre a variação quando o autor transforma esse termo técnico em um termo geral.   




“Tecnologia assistiva é um termo, ainda novo, utilizado para identificar todo o arsenal de recursos e serviços que contribuem para proporcionar ou ampliar habilidades funcionais de pessoas com deficiência e, consequentemente, promover vida independente e inclusão”. Foi dessa forma, ao mesmo tempo clara e sucinta, que Bersch e Tonolli descreveram, em 2006, a essência do que conhecemos por tecnologia assistiva. Objetivamente, ela permite que as pessoas com deficiência abandonem um terreno segregado e tornem-se capazes de executar novamente, ou pela primeira vez, tarefas antes impossíveis. 

Notícia 4 - Pesquisadores apostam no open hardware para criar tecnologias de acessibilidade de baixo custo

Fonte: Dossiê da Revista Comciência
http://www.comciencia.br/comciencia/handler.php?section=8&edicao=120&id=1457

SCHMIDT, Sarah. Pesquisadores apostam no open hardware para criar tecnologias de acessibilidade de baixo custo. Disponível em: <http://www.comciencia.br/comciencia/handler.php?section=8&edicao=120&id=1457> Acesso em: 02 nov. 2017. 

No segundo parágrafo ocorre a expansão pela explicação dos termos e a variação pela denominação. 


O Arduino e o Raspberry Pi são microcomputadores que podem ser programados para rodar diversos softwares e serem usados como plataforma de prototipagem eletrônica. Já a impressora 3D permite a impressão de modelos de próteses que podem ser retrabalhados e aprimorados, nos quais pesquisadores podem trabalhar funções e programas. Todas essas tecnologias são classificadas como open hardware ou hardware livre, como o termo é conhecido no Brasil. O conceito, inspirado no movimento do software livre, trabalha com licenças livres e lançamento irrestrito de informação sobre o projeto do hardware. Isso possibilita que qualquer pessoa tenha acesso ao modo de criação dos equipamentos e tenha a liberdade de aplicá-lo em diversos projetos.



Considerações Finais

Esse estudo vai ao encontro do propósito da disciplina LET 614 (Análise do Discurso da Divulgação Científica), pois conseguimos desenvolver um produto (blog) que irá auxiliar jornalistas e cientistas a compreenderem a importância de transformar o conhecimento gerado no âmbito científico em conhecimento público com estratégias divulgativas adequadas.
O blog é uma ferramenta de acesso democrático e um meio em que o debate é incentivado por meio de comentários. Por isso foi um veículo interessante para a aplicação do estudo.

Verificou-se que o dossiê Vida e Tecnologia prioriza as estratégias divulgativas e também utiliza os verbos dicendi na constituição de suas reportagens, orientando o leitor para que o mesmo obtenha uma compreensão maior sobre aquilo que é relatado.

REFERÊNCIAS

CATALDI, C. A divulgação da ciência na mídia impressa: um enfoque discursivo. In: GOMES, M. C. A.; MELO, M. S. S; CATALDI, C. (Org.). Gênero discursivo, mídia e identidade. Viçosa – MG: Ed. UFV, 2007, p. 161-164.

FERRERO, C. L. A mescla de vozes em artigos jornalísticos: o caso da “Vaca Louca”.
In: GOMES, Maria Carmem Aires; CATALDI, C., MELO, Monica Santos de Souza (Orgs.). Estudos
discursivos em foco
: práticas de pesquisa sobre múltiplos olhares. Viçosa – MG: Ed.
UFV, 2011, p. 93-110.

VAN DIJK, T. A. Por uma teoria da comunicação científica: discurso, conhecimento,
contexto e compreensão da sociedade. In: GOMES, Maria Carmem Aires; CATALDI,
Cristiane; MELO, Mônica Santos de Souza (Orgs.). Estudos discursivos em foco:
práticas de pesquisa sob múltiplos olhares. Viçosa – MG: Ed. UFV, 2011, p. 19-40.


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